São João no Maranhão: O Bumba Meu Boi

28 julho 2015

Visitar São Luís no mês de junho é ser agraciado com a oportunidade ver o São João do Maranhão, algo bem diferente dos festejos juninos no restante do país. As lembranças que eu tenho de festa junina são da época da infância e uma parte da adolescência: balões, escola e a praça do bairro enfeitada com bandeirolas, competição de quadrilhas, barraquinhas com os quitutes (cocada, cuscuz, mingau, arroz doce, canjica, pé-de-moleque, bolos, algodão doce, pipoca, maçã do amor, etc) e com as brincadeiras  como por exemplo, “jogo de argolas”, “pescaria” e “tiro ao alvo” e lógico, uma grande fogueira.

Meninos com camisas xadrez e meninas com seu vestido de pano de chita. Na quadrilha sempre tinha um padre, os noivos e o restante do grupo. Dançavam, sob as animadas músicas tradicionais e do grande Luiz Gonzaga, os passos  “túnel”, “roda”, “caracol”, “olha a cobra!”,  “olha a chuva!”, “Mas é mentira!” e aos gritos de “Anarriê!”.  Bons tempos! Lembrando que sou do subúrbio do Rio. Sempre foi tradição nos finais de semana entre os meses de junho a agosto ter festa junina nos bairros. Já faz um par de anos que não piso em uma festa junina.  Sei que muita coisa mudou mas pelo que eu vi, a tradição dos festejos resiste bravamente. Não sei se ainda existe isso na Zona Sul.

Eu, creio que como todo mundo, sabe que lugar bão de festa junina é no Nordeste. Sempre quando chega o mês de junho, o destaque no noticiário é para as rivais Caruaru, em Pernambuco e Campina Grande, na Paraíba. Conta inclusive com apoio do Governo. A TV também destaca rapidamente sobre a festa do Bumba Meu Boi no Maranhão.  Eu não tinha a menor ideia do que é o tal do boi.  O que eu tenho de recordação é ver na TV uma pessoa com a fantasia do boi bumbá dançando e rodando.

Aprendi um pouco sobre esta dança do nosso folclore na Casa do Nhozinho e principalmente na Casa do  Maranhão, onde há uma sala com exibição de vídeo explicativo. Fui conferir como tudo funciona no grande arraiá da praça Maria Aragão em São Luís.  Fiquei surpresa e encantada com a festa! Então, se estiver por estas bandas durante o período junino, não deixe de ir aos arraiás!

A origem e a lenda do bumba-meu-boi

Acredita-se que a origem do bumba-meu-boi tenha surgido no Nordeste no século XVII e XVIII, durante o Ciclo do Gado. O bumba-meu-boi possui diversas denominações em todo o Brasil. Como boi-bumbá, no Amazonas e no Pará, boi-calemba, na Bahia, boi-janeiro, etc.  A manifestação mais popular do folclore é no Maranhão e é a principal atração dos festejos juninos.

A lenda

O Bumba meu boi é baseado em uma lenda. A história mais comum é esta:

” Era uma vez um casal: Pai Francisco – negro Chico e Mãe Catirina. Grávida, Catirina começou a ter desejo por língua de boi. Não podia ser qualquer boi. Tinha que ser a língua do boi mais adorado da fazenda. Para satisfazer sua vontade, Pai Francisco mata o boi e corta a língua.  O casal foge. Quando o fazendeiro descobre, fica furioso  e após investigar entre os escravos quem foi o responsável pela morte do animal, ordena que os índios capturem Pai Francisco. O fazendeiro obriga-o a trazer o boi de volta. Ele se dá conta do erro e pede para que os pajés o ajudem. Os pajés conseguem ressuscitar o boi, o fazendeiro  perdoa Pai Francisco e assim todos comemoram o milagre, dando início a uma grande festa”

Apresentação

A lenda é contada sob forma de “auto”.  O elenco é composto de personagens fantasiados e o auto é acompanhado de banda musical. Os principais personagens são:

  • O boi – é a figura principal da apresentação. É feito de estrutura de madeira em forma de touro, forrado com veludo bordado.  Na armação é presa uma saia de tecido colorido que serve para esconder a pessoa que faz a evolução. Esta pessoa é chamada de miolo;
  • Pai Francisco e Mãe Catirina – Escravos ou trabalhadores rurais (dependerá do enredo).  Catirina geralmente é representada por um homem vestido de mulher.
  • Dono da fazenda – Comanda o grupo com o auxílio de um apito e canta as toadas (as canções);
  • Índias – mulheres vestida com penas;
  • Vaqueiros – são os empregados do dono da fazenda. No enredo, eles avisam ao fazendeiro da morte do boi;

As pessoas que participam do auto são chamada de brincantes. Os bois maranhenses são divididos de acordo com o “sotaque”.  O que distingue esses sotaques  são os instrumentos musicais e a forma como são tocados (ritmo e cadência). São cinco os sotaques: matraca, zabumba, orquestra, baixada e costa de mão. Saiba mais sobre os sotaques dos bois maranhenses na série de reportagem da TV Brasil.

São João do Maranhão

Os festejos juninos no Brasil em geral são para homenagear os três santos católicos:  Santo Antonio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho). No Maranhão, homenageia-se também São Marçal (30 de junho), dia do encerramento oficial dos festejos juninos, marcado pelo encontro dos batalhões de Bumba meu boi no bairro João Paulo.

Curiosidades

– O primeiro registro que se tem do Bumba meu boi é de um jornal recifense chamado O Carapuceiro em 1840.

– Em agosto de 2011, o bumba-meu-boi foi reconhecido como patrimônio cultural do Brasil pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional);

– Comemora-se em 30 de junho o Dia do Bumba-meu-Boi.

– O estado do Maranhão é o único que comemora os quatros santos católicos no mês de junho.

– A festa de São Marçal surgiu a partir da proibição aos grupos de Bumba Meu Boi de seguirem para o centro da cidade, sob pretexto de manter a ordem. O limite era o areal do João Paulo.  Os grupos acabam por se encontrar lá, virando tradição que é mantida até hoje.

Os arraiás de São Luís

Como estávamos no Centro Histórico, fomos ao arraiá da Praça Maria Aragão, um dos principais arraiás da cidade. Também fomos ao arraiá ao Shopping da Ilha que nem tem comparação com o Maria Aragão. Tudo é feito no pequeno espaço oferecido no interior do shopping. As apresentações foram ótimas. No dia que fomos, um grupo de meninas se apresentou. Como elas dançam! Também vimos a apresentação de um quadrilha. Já no Maria Aragão, vimos alguns bois com sotaque orquestra. Depois da aula na Casa do Maranhão, foi fácil identificar 😉

Maria Aragão

Outros arraiás considerados principais na cidade: o da lagoa da Jansen e o do CEPRAMA.  A programação do São João é divulgada nos jornais locais e no site do Governo do Estado: http://www.ma.gov.br/saojoao2015/

As outras manifestações culturais em São Luís são o Tambor de Criola e os Cacuriás. Infelizmente, não pude prestigiar nenhuma delas.

Comidinhas

Aqui em São Luís e também em Barreirinhas, as comidas de barraca dos arraiás é diferente do Rio.  Não há as comidinhas específicas para o período de  “São João” como estamos acostumados. É oferecido comida normal, do dia-a-dia, como arroz de cuxá, torta de camarão e carne de sol. Há os lanchinhos engordativos como pipoca, batata frita, sorvete, bolos, etc.  Vale a pena comentar sobre os regionalismos: a conhecida canjica no Rio é chamada no Maranhão de mingau de milho. O curau paulista é chamado de canjica.

Segurança

O arraiá da Maria Aragão é muito bem policiado. Apesar de estar cheio não vi nenhuma desordem. Mesmo que esteja no Centro Histórico recomendo pegar um táxi para lá. Difícil será achar taxista que aceite a corrida. Tivemos dificuldade para conseguir um. Peça a ajuda no hotel. Evite se arriscar.

Um olhar crítico da turista

Gostei muito do Bumba Meu Boi mas meu olhar feminino crítico observou logo uma coisa: os brincantes que se apresentaram na Maria Aragão são em boa parte gente nova e com corpos bonitos.  As mulheres vestidas de índias, com pouca roupa. Já sei que alguém deve estar pensando: “__ Já viu índio vestido, Pat?”, “__ Qual é o problema de ter gente bonita nos bois?”. Eu respondo: “__Nenhum!”. Porém fiquei pensando onde estão os bois que o povão, pessoas comuns, os mais velhos, participam?  Só ficam na platéia?  Não teve como eu não fazer uma comparação com o carnaval carioca. As pessoas comuns não estão na Sapucaí.  Estão nas ruas. Então, quando voltar a  São Luís esta época, irei me informar sobre os arraiás de bairro. Além de ver uma apresentação do Cacuriá e do Tambor de Criola.

 

 


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